Eleições 2026: qual a nossa condição de participação?
No domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores e deputados. Uma pergunta, porém, antecede a escolha: sabemos o suficiente sobre os grandes problemas do país e sobre o que os candidatos pensam e propõem diante deles? Votar deveria significar afirmar, com autonomia, para onde queremos ir, escolhendo entre diferentes projetos. Essa é uma das promessas extraordinárias da democracia: cada cidadão, um voto. Independentemente de renda, escolaridade ou posição social, o voto de cada um tem o mesmo valor. Mas essa igualdade no voto se traduz em igual força para influenciar as eleições e as decisões dos poderes públicos? Há boas razões para duvidar. Deixamos para trás a democracia direta das cidades gregas, em que apenas homens adultos, livres e filhos de cidadãos decidiam na praça pública. Vivemos em democracias representativas, com sufrágio praticamente universal. Essa conquista trouxe desafios ainda não equacionados, entre eles a qualidade da informação que chega às pessoas e o risco de manipulação em massa. A filósofa alemã Lisa Herzog, no livro Citizen Knowledge, destaca o papel do conhecimento dos cidadãos no projeto democrático, que tem Estado e mercado como eixos dominantes no campo de poder. A pessoa comum dispõe de pouca informação sobre instituições, políticas públicas e a natureza dos problemas advindos do mercado que afetam a sociedade. Herzog recupera um exemplo perturbador, anterior às redes sociais.
Quando se acumulavam evidências de que o cigarro causava câncer de pulmão, a indústria do tabaco investiu pesado na produção da dúvida. Financiou os poucos cientistas que contestavam essa relação e recorreu a pesquisadores prestigiados de outras áreas para sustentar que a questão seguia em aberto. Durante décadas, as instituições públicas conviveram com essa estratégia. As medidas regulatórias foram adiadas, e milhões de pessoas morreram. O exemplo mostra o quanto a promessa democrática ainda não se realizou. Estado e mercado dispõem de recursos, especialistas e estruturas de comunicação que lhes dão capacidade de influência muito superior à da sociedade civil, embora sejamos muito mais numerosos. Para enfrentar essa desigualdade, Herzog propõe que a sociedade civil construa uma infraestrutura do conhecimento: uma base confiável e acessível, com universidades, instituições de pesquisa, imprensa profissional, organizações e movimentos sociais, que permita às pessoas confrontar as versões que recebem do Estado, do mercado e dos grupos de interesse. Não se trata de dizer em quem votar, mas de oferecer condições para compreender o que está em jogo. Enquanto essa infraestrutura não existe, cabe a cada um de nós olhar com mais cuidado para as eleições. Até aqui, minha percepção é que programas de governo e propaganda eleitoral estão longe de enfrentar com profundidade os grandes problemas do país. Candidatos se esquivam de questões difíceis e das escolhas que terão de fazer. Conhecemos os grandes desafios brasileiros? Sabemos distinguir informação confiável daquela produzida para influenciar nossas escolhas? Proponho um exercício para os dias que restam: escolher alguns problemas que consideramos centrais, buscar informações em fontes reconhecidas e verificar como partidos e candidatos se posicionam diante deles. Não para que alguém nos diga em quem votar, mas para colocar em xeque o que pensamos saber. Cada um de nós tem um voto. Que ele seja também fruto de uma escolha informada.

Leice Garcia Presidente do Observatório Social de BH (OSBH)
É idealizadora e presidenta do Observatório Social de BH e Brumadinho. Foi Auditora Federal de Finanças e Controle, com doutorado em administração pela UFMG. Também exerceu a função de Assessora Especial de Controle Interno da ministra Tereza Campello (MDS) no Governo Dilma.



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